Arquivo da categoria: PALAVRAS DOS PASTORES

A CAMINHO DOS 500 ANOS – MELANCHTHON

Um dos grandes “leigos” da Reforma – Melanchthon

 

A Reforma foi realizada somente por Lutero? A história mostra que não. Antes de Lutero há alguns personagens muito importantes, como John Huss, John Wyclif, Jerônimo Savonarola, entre outros. Todos os citados eram também sacerdotes. Mas será que há também algum leigo que se destacou nesse processo?

Antes de respondermos a essa pergunta, é conveniente explicar o que significa para nós, luteranos, o termo “leigo” da nossa sigla (LLLB), o segundo “L”. O termo “leigo” vem de Laikós, que quer dizer “do povo”. E, nesse sentido, refere-se aos membros de uma congregação como povo de Deus.Assim, todo pastor é um leigo, mas nem todo leigo é pastor. De uma forma geral, o termo é usado para aquele que não é sacerdote (pastor).

Voltando à pergunta, se há algum leigo na Reforma, podemos dizer que sim. Um dos personagens mais influentes na Reforma foi Felipe Melanchthon. Vamos conhecer um pouco de sua história e depois olhar para a atualidade e pensar em algumas perspectivas futuras.

Felipe Melanchthon nasceu em 16 de fevereiro de 1497, em Bretten, Alemanha. Logo cedo passou por experiências dolorosas. Com seis anos,acompanhou o pai à cidade provincial de Heidelberg e, naquele dia, o bispo de Worms e chanceler de Heidelberg, Johann von Dalberg, morreu ao cair de uma escada. Isso ficou gravado em sua mente.

Um ano depois, a cidade de Bretten foi sitiada por causa de uma guerra por motivos de uma herança. Assim, ele logo cedo conheceu a triste realidade da guerra. Em outubro de 1508, faleceram seu pai e o avô. Neste mesmo ano,ele foi enviado para Pforzheim junto com seu irmão Jorge e o irmão mais jovem de sua mãe, para uma renomada escola de Latim. Assim, com onze anos ele já teve que ficar longe de seus pais.Essa realidade da sua infância fez de Melanchthon, além de um grande estudioso, um homem devoto à oração.

Algumas coisas que merecem destaque na vida de Melanchthon:

–apesar de não ser sacerdote, foi um dos grandes colaboradores de Lutero.Lançou as bases para a educação superior na Igreja Protestante, não somente no campo da teologia. Ele foi denominado “o educador da Alemanha”. Após a morte de Lutero, foi o mais destacado líder da Reforma na Alemanha (HÄGGLUND, 2003, p.211);

–Lutero aperfeiçoava seus conhecimentos de grego com Melanchthon (SCHEIBLE, 2013, p.151);

–foi ele que efetivamente redigiu a Confissão de Augsburgo, documento confessional de nossa Igreja. Também escreveu a Apologia da Confissão (HÄGGLUND, 2003, p.211);

–segundo Melanchthon, somente a Escritura é fonte da doutrina Cristã. Os símbolos da Igreja antiga, inclusive o reconhecimento de sua obrigatoriedade, e certos escritos de padres eclesiásticos, assim como os de Lutero, têm sua autoridade e importância condicionadas à função de intérpretes adequados e reconhecidos da Escritura (RIETH, 1997, p.228);

–em 1518 publicou uma gramática da língua grega, denominada de “Rudimentos da Gramática Grega”, usada por muito tempo como manual nas escolas elementares, secundárias e superiores. No mesmo ano, tornou-se professor de grego na Universidade de Wittenberg (TITILLO, 2015, p.51);

–A sugestão paraque Lutero desse início à tradução da Bíblia foi de Melanchthon, no início de dezembro de 1521. Depois de feita a tradução, Lutero conversou e a analisou com ele, visto que Melanchthon era especialista em grego (SCHEIBLE, 2013, p.152);

– Melanchthon morreu em 19 de abril de 1560. Foi sepultado no dia 21 de abril, ao lado de Lutero. Sua última anotação foi um bilhete que diz porque não precisamos temer a morte: “Tu escaparás dos pecados. Serás libertado de toda a canseira e da fúria dos teólogos. Entrarás na luz, verás a Deus, contemplarás o Filho de Deus. Conhecerás aqueles maravilhosos mistérios que não conseguimos entender nesta vida: por que fomos criados do jeito que somos e no que consiste a união das duas naturezas de Cristo” (SCHEIBLE, 2013, p.278).

Diante desses destaques, vemos a importância de um leigo para que a Palavra de Deus continuasse sendo anunciada e estudada até hoje.

Onde está a base de nossa Igreja? Por que ela se mantém de pé até hoje? A base é Jesus Cristo. A base não são seres humanos. Mas precisamos também lembrar que Deus enviou várias pessoas, que foram seus instrumentos, para anunciar os seus atos poderosos, assim como Lutero e Melanchthon. E, hoje, Deus chama a todos nós, cristãos (pastores, leigos), para anunciarmos a sua Palavra: “Mas vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz”(1Pe 2.9).

Por isso, como diz o refrão do hino dos leigos:“Leigos, vamos batalhar pela causa de Jesus! Na congregação, no lar, nosso lema seja a cruz”!

 

Referências Bibliográficas:

HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia.Porto Alegre: Concórdia, 2003.

RIETH, Ricardo Willy. O pensamento teológico de Filipe Melanchthon (1497-1560). Estudos Teológicos, v.37, n.3, p.223-235, 1997.

SCHEIBLE, Heinz. Melanchton: uma biografia.São Leopoldo: Sinodal, 2013.

TITILLO, Thiago Velozo. A contribuição dos reformadores para a educação pública. Azusa: Revista de Estudos Pentecostais, n.1, 2015.

 

Pastor Clóvis Renato Leitzke Blank – Conselheiro da LLLB

A CAMINHO DOS 500 ANOS – QUANTAS TESES SERIAM NECESSÁRIAS HOJE?

QUANTAS TESES SERIAM NECESSÁRIAS HOJE?

 

Homens falíveis e imperfeitos, utilizados pelo Espírito Santo de Deus para resgatar e aprofundar os ensinamentos bíblicos fundamentais. Talvez poderíamos resumir assim, em poucas palavras, a história da Reforma e dos reformadores. Pensar nos acontecimentos do século XVI não é tão simples e fácil. Precisamos cuidar para não endeusar os reformadores nem a Reforma.  Por outro lado, temos um compromisso com a história: o passado, o presente e o futuro. Por isso a necessidade de relembrar e proclamar a Reforma luterana e sua mensagem, que reflete o ensinamento da Palavra de Deus, aos dias de hoje. A natureza humana continua a mesma, submersa em pecado. Os problemas teológicos e espirituais costumam repetir-se na vida da Igreja, de tempos em tempos. Tenho a impressão que se avolumaram e que novas reformas são necessárias.A Igreja e os cristãos de hoje continuam precisando de coragem.

Coragem foi um sentimento bastante presente na vida de Martinho Lutero. É preciso, sim, ter coragem para deixar o curso universitário de Direito e ingressar num mosteiro, mesmo sabendo que causaria desapontamentos, especialmente ao seu pai. Coragem para expor suas dúvidas e sentimentos a alguns superiores da sua ordem religiosa (Agostiniana). Coragem para aprofundar-se nos escritos dos pais apostólicos e, especialmente, no estudo da Bíblia Sagrada, escrevendo então suas 95 teses,convidando os pensadores de sua época para um debate ao vivo ou por escrito: “Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém” (LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas, volume I, p.22).

As 95 Teses de Lutero realmente representaram um marco e um ponto de partida. Entre as teses encontramos expressões de compreensão dos ensinamentos da Bíblia, como por exemplo:

–Tese número 1: “Ao dizer fazei penitência, etc (Mt 4.17), nosso Senhor Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência”.

– Tese 62: “O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus”.

– Tese 94:“Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça…”.

Entretanto, devemos reconhecer que elas registram, na realidade, o início do pensamento de Lutero, que seria trabalhado e refinado por Deus ao longo de seus estudos e experiências posteriores. Vejamos o seguinte exemplo:

Lutero faz referência ao purgatório, sem contestar a doutrina em si, em doze das suas teses (10, 11, 15, 16, 17, 18, 19, 22, 25, 26, 29, 82). Por exemplo: Tese 29: “Quem disse que todas as almas no Purgatório desejam ser redimidas? Diz-se que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascal, de acordo com uma lenda sobre eles”.

Trazemos essa informação não para escandalizar, mas para lembrar como é difícil desapegar-se dos ensinamentos errados recebidos. No caso de Lutero, ele reproduz o pensamento do agostiniano João Genser Von Paltz (Lutero, Martinho. Obras Selecionadas,v. 1,p.25, nota 15). E então vemos a diferença que faz aprofundar-se nos estudos das Escrituras Sagradas. Não é por acaso que o apóstolo João deixou registrado: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.31).

Às vezes ficamos pensativos: como alguns tornavam-se padres, bispos, sacerdotes, teólogos e não pensavam na profundidade e simplicidade de textos bíblicos como Romanos 1.17: “O justo viverá por fé?”Eram graduados religiosos e desconheciam que “O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”? (Rm 6.23).Ou “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”? (Efésios 2.8,9). Tantos erros entraram na vida e nos ensinos da Igreja porque a Bíblia era praticamente relegada a um segundo plano como regra e norma de fé. Aqueles que deveriam usá-la, com frequência não permaneceram nela e não a conheciam como deveriam. A tradição da Igreja tinha supremacia sobre o texto bíblico revelado por Deus.

Martinho Lutero revela que sua formação teológica deixou a desejar: “Sei e confesso que na teologia escolástica nada aprendi, senão ignorância a respeito do que é pecado, justiça, batismo e toda vida cristã. Também não aprendi o que é o poder de Deus; sua obra e justiça, nem o que é fé, esperança e amor. Em resumo, não apenas nada aprendi como também aprendi coisas que tive que desaprender, porque eram de todo contrárias às Divinas Letras” (LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas,v. 1,p.360).

 Conhecendo essa realidade e o pensamento religioso da época da Reformado século XVI, vemos como os reformadores foram graciosamente utilizados por Deus na busca e preservação das verdades principais do sola Escriptura, sola gratia e sola fide.

O Deus que guiou os reformadores não deixou de agir e não deu seu trabalho por encerrado. Ele continua falando ao mundo hoje, com a mesma mensagem eterna, através da Escritura Sagrada. Devemos, em oração e temor, ter a coragem de proclamá-la. Mais do que isso, a coragem de vivê-la além dos nossos muros: “Não se acende uma luz e se a coloca debaixo de um alqueire, etc. Isso quer dizer: quem quiser ser uma luz, não vá esconder-se num canto escuro, e sim, apresente-se publicamente e seja destemido” (Lutero, Martinho. Prédicas semanais sobre Mt 5-7. In: LUTERO, Martinho,Obras Selecionadas,v. 9, p.76)

O mundo anda precisando de cristãos destemidos, que clamem pela “reforma nossa de cada dia” e que estejam prontos a serem usados para que isso aconteça, escrevendo e reescrevendo as teses que nossa sociedade precisa refletir.

 

 

Referências Bibliográficas

CESAR, Elben Magalhães Lenz. Conversas Com Lutero: História e pensamento. Viçosa: Ultimato, 2006.

DAWSON, Christopher. A Divisão da Cristandade – Da Reforma Protestante à Era do Iluminismo.  São Paulo: Realizações, 2014.

LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1987, v. 1.

LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1987, v. 9.

Pastor Adelar Munieweg – Conselheiro da LLLB

 

A CAMINHO DOS 500 ANOS – VIAGEM A ROMA E DOUTORADO DE LUTERO

Viagem a Roma e Doutorado de Lutero

 

Para todo bom católico da época de Lutero, uma viagem a Roma seria algo maravilhoso, seria a grande oportunidade de ver os “santos túmulos” dos apóstolos, bem como conhecer a cidade “mais santa” de toda a cristandade.

Para Lutero, essa viagem teve uma grande importância. Mas ao invés de ficar admirado com a “santidade” de Roma, ele inquietou-se com o que estava acontecendo dentro da Igreja daquela época.

O motivo da viagem foram questões relativas à Ordem dos Agostinianos. Alguns queriam reformas na Igreja, outros não. Por causa destes apelos, Lutero acompanhou um delegado do mosteiro de Erfurt. Os dois foram a pé, em novembro de 1510. Na viagem, Lutero adoeceu, a água fez-lhe mal, causando-lhe problemas intestinais (DREHER, 2014, p. 57, 58).

No fim do ano chegaram a Roma; ao avistar a cidade, Lutero disse: “Eu te saúdo, ó Roma santa! Três vezes santa em virtude do sangue dos mártires que em ti foi derramado” (JUST, 2003, p. 56).

Lutero foi a todos os lugares prescritos aos peregrinos. Num primeiro momento, ele acreditava em tudo o que estava sendo ensinado por lá. E ele mesmo diz, relatando anos mais tarde aquele momento: “Acreditei em tudo”, e lamentou que seus pais não estivessem mais vivos, pois teria podido adquirir para eles a “grande indulgência”, propiciando-lhes bem-aventurança no além (DREHER, 2014, p. 59).

Ele ficou em Roma por quatro semanas e lá viu a grande estrutura administrativa da Igreja de então. Ficou bem guardada em sua mente a imagem das mesas arrecadadoras, cada uma com uma finalidade diferente: eliminação dos votos, dispensa de impedimentos matrimoniais, legitimação de filhos bastardos (DREHER, 2014, p. 60). “Um dito popular afirmava que os mais importantes santos em Roma eram São Dobrão de Ouro e São Centavo de Prata” (DREHER, 2014, p. 61).

Esta viagem foi importante para que Lutero visse os absurdos que estavam acontecendo na época e fosse instigado a estudar com mais insistência as Escrituras Sagradas e as ensinasse ainda com mais fervor.

Quando voltou a Wittemberg, Lutero foi convidado por Staupitz a encaminhar seu doutorado e tornar-se pregador no mosteiro de Wittemberg. Lutero apresentou quinze razões para não aceitar a tarefa, inclusive os seus constantes problemas de saúde, dizendo que poderia morrer muito jovem. A isso, seu conselheiro respondeu que, se morresse, Deus também no céu precisaria de doutores (DREHER, 2014, p. 64). No fim, Staupitz o convenceu a assumir o desafio; assim, Lutero torna-se doutor em teologia, passando a ensinar a disciplina de Leitura da Bíblia.

Em sua formatura, teve que jurar que não ensinaria doutrina “estranha”, condenada pela Igreja, e que denunciaria ao corpo docente quem o fizesse (DREHER, 2014, p. 65).

Além de docente, tornou-se subprior, que era um vigário distrital, com a função de visitar uma dúzia de mosteiros. As suas muitas atividades foram importantes para que ele soubesse também o que acontecia fora dos muros do mosteiro. Com isso aprimorou o seu vocabulário e aprendeu a falar entre as várias classes sociais.
Em suas visitas aos mosteiros, ele consolava, confortava e admoestava, e só encontrava consolo na cruz de Cristo.

A grande questão que Lutero abordava com seus alunos e que refletia também uma preocupação consigo mesmo, era a salvação da alma. Perguntas vinham à tona: “Estou condenado por ser pecador ou ainda posso alcançar a salvação?” e “Posso ter certeza ou devo viver na incerteza até o fim de meus dias”?

Ele nem de longe imaginava afastar-se da doutrina da Igreja. Ele queria que as autoridades dessem ouvidos aos questionamentos e se pronunciassem.

O sentido da palavra (metanoia) o fez refletir muito. Quem pode dar penitência, perdão dos pecados? Essa palavra o fez entender que “as chaves do céu” não pertencem ao papa. Lutero descobriu que metanoia significa transformar-se completamente e confiar totalmente na graça de Deus (DREHER, 2014, p. 69, 70).

Ele faz questionamentos bem polêmicos em suas aulas e abandona o latim para falar em claro alemão. “A quem confia em suas boas intenções o diabo diz: “Ah, querido gatinho, vem e te encosta, pois teremos hóspedes – no inferno”. Aos que se julgam muito puros, quando na realidade, estão duros de tanto sujeira: “Quando eras bebê no braço de tua mãe, nunca lhe fizeste no colo algo que cheirasse mal? És tão bem cheiroso que o farmacêutico algum dia poderá fazer de ti um bálsamo precioso?” (DREHER, 2014, p. 69).

Lutero aprendeu, através de seus estudos da Bíblia, que a justiça de Deus não é uma exigência a ser cumprida por meio de realizações, mas sim um dom a ser aceito por fé (LINDBERG, 2001, p.86).

Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus” (Rm 1.17b).

 

Referências bibliográficas:

DREHER, Martin N. De Luder a Lutero: uma biografia. São Leopoldo: Sinodal, 2014.

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

LIENHARD, Marc. Martim Lutero: tempo, vida, mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

OLSON, Roger. História da teologia cristã. São Paulo: Editora Vida, 2001.

Pastor Clóvis Renato Leitzke Blank – Conselheiro da LLLB

 

 

A CAMINHO DOS 500 ANOS – LUTERO COMO MONGE

LUTERO COMO MONGE

 

A decisão de Lutero de ir para o mosteiro não foi muito bem aceita pelas pessoas que o rodeavam.

Quando ele contou aos seus amigos, num primeiro momento não acreditaram, depois tentaram fazê-lo desistir da ideia. Mas ele permaneceu firme em seu propósito e no dia 17 de julho de 1505, Lutero entra no convento dos agostinianos em Erfurt (JUST, 2003, p. 49).

Da família, Lutero também não tinha apoio para a decisão. Tempos depois, o pai de Lutero foi visitá-lo no convento e, numa conversa onde outros elogiavam esta decisão, ele afirmou: “Queira Deus que isso não seja um engano ou ilusão diabólica” (JUST, 2003, p.49). Também, em alguns momentos, lembrou-o do quarto mandamento, frisando que não se devia desobedecer à vontade dos pais.

Quando Lutero havia recebido o título de mestre em Artes, o seu pai passou a chamá-lo de “senhor”; depois de sua decisão de ir ao convento, voltou a chamá-lo de “tu” (DREHER, 2014, p.39).

A vida no mosteiro, em Erfurt, era cheia de regras: “Estava proibido de rir. Nada de movimentos bruscos. O silêncio era virtude. O olhar tinha que ficar voltado para o chão; as mãos eram enfiadas nas mangas do hábito. Até o copo tinha que ser segurado com ambas as mãos ao beber. Nas refeições não se conversava, só se ouvia leituras de vidas de santos e de textos piedosos. O dia também estava rigorosamente determinado. Sete vezes durante as 24h do dia havia oração no coro e canto responsivo dos Salmos. Tudo iniciava às 2 horas da manhã. A primeira refeição era tomada ao meio-dia. A cela monástica não podia receber visita; era pequena, sem aquecimento. A porta não podia ser chaveada e tinha uma abertura que possibilitava a observação. Nada havia nas paredes. A cama era um saco de palha com um cobertor de lã. O silêncio dominava (DREHER, 2014, p. 40).

No mosteiro, Lutero lançou-se com toda dedicação a cumprir o que lhe era exigido. Ele fazia todo o esforço, pensando que assim pudesse obter a salvação. Ele tentava “mortificar a carne” com flagelos, orações, jejuns. Tem-se sugerido que os problemas que Lutero teve em sua saúde eram devidos aos longos períodos de jejum, autoflagelação e noites insones numa cela de pedra, sem um único cobertor (LINDBERG, 2001, p. 83).

A grande pergunta que Lutero se fazia era: “Será que realmente dei o melhor de mim em favor de Deus? Será que realizei plenamente o potencial que me foi dado por Deus?” Em um certo dia, quando ele estava perante seu confessor, onde ele listava seus pecados e falava da preocupação do perdão e de ser agradável a Deus, o confessor lhe respondeu: “Tu és um idiota (…) Deus não está zangado contigo, tu é que estás zangado com Deus (LINDBERG, 2001, p.84).

Lutero, ao contrário da maioria dos seus colegas, preocupava-se muito com o juízo final. Ele temia ser confrontado com a ira de Deus, com um Cristo raivoso. Pensava que Cristo era um juiz que só condenava.

Uma pessoa muito importante para Lutero foi o dr. Johann Staupitz, prior do convento. Ele o dispensou dos serviços mais humildes e o encorajou a prosseguir no estudo da Bíblia (JUST, 2003, p.50).

Staupitz foi o primeiro a ordenar a distribuição de Bíblias para o estudo dos padres nos mosteiros que estavam sob a sua direção (DREHER, 2014, p. 43).

A primeira Bíblia de Lutero lhe foi dada por seus superiores. Era uma Bíblia latina, encadernada em couro vermelho, tradução de São Jerônimo. Isso era um privilégio, pois a maioria dos outros que estavam no convento nem sequer via a Bíblia, e só tomavam conhecimento de algumas partes através de leituras de trechos selecionados (DREHER, 2014, p.43).

Mas Lutero sofreu oposições no convento. Seu mentor, Usingen, tirou-lhe a Bíblia, argumentando que lesse os antigos mestres, pois dizia que estes já tinham destilado o suco da verdade bíblica. “A Bíblia só provoca divisões”, dizia ele (DREHER, 2014, p.43).

Na sua ingenuidade, Lutero sentia verdadeira veneração pelo papa e considerava Hus um herege abominável. Apesar disso, ele leu alguns sermões deste “herege”. Ao final, ficou pensativo e não entendia porque alguém assim poderia ter sido queimado. Mas pelo que tinha ouvido falar, logo deixou os sermões de Hus de lado (JUST, 2003, p.51).

Em 27 de fevereiro de 1507, Lutero foi consagrado diácono, e em 3 de abril foi ordenado sacerdote; no dia 2 de maio celebrou a sua primeira missa na presença de seu pai. Conta-se que, no meio da missa, Lutero encheu-se de temor. O prior, ou o mestre dos noviços, teve que retê-lo junto ao altar, pois ele estava ameaçando fugir (LIENHARD, 1998, p. 36).

Quem trouxe grande consolo a Lutero nos tempos de convento foi Staupitz. Em um certo momento, quando ele estava a lamentar seus pecados, Staupitz disse: “Cristo é a remissão dos reais pecados. Ele é o verdadeiro Salvador, e você é um legítimo pecador. Deus enviou seu Filho e o entregou à morte por nós” (JUST, 2003, p.52).

Foi Staupitz que ordenou a Lutero que seguisse seus estudos teológicos em grau de doutorado. Foi a contragosto, mas obedeceu à ordem. Por isso foi para Wittemberg, onde, em outubro de 1512, tornou-se doutor em teologia e passou a comentar a Bíblia para os estudantes da faculdade de teologia de Wittemberg (LIENHARD, 1998, p. 37).

 

Referências bibliográficas

DREHER, Martin N. De Luder a Lutero: uma biografia. São Leopoldo: Sinodal, 2014.

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

LIENHARD, Marc. Martim Lutero: tempo, vida, mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

 

Pastor Clóvis Renato Leitzke Blank – Conselheiro da LLLB

A CAMINHO DOS 500 ANOS – MARTINHO LUTERO

MARTINHO LUTERO – Infância e Estudos

 

Martinho Lutero era filho de Hans Luther (João Lutero), mineiro por profissão, nascido no campo, e Margaretha Luther (Margarida Lutero). Nasceu no dia 10 de novembro de 1483.

Lutero veio de uma família em ascensão social. Seu avô era lavrador, seu pai progrediu na área da mineração e se tornou um pequeno empregador. Lutero foi o primeiro da família a tornar-se um acadêmico.

No dia após o nascimento (11 de novembro), Martinho foi batizado e recebeu o nome do santo do dia: São Martinho. O sobrenome deriva do nome “Lothar” ou “Lotário”, um dos imperadores alemães medievais, e poderia ser escrito nas variantes “Luder” ou “Lüder”. Somente a partir de 1518 que o reformador passou a assinar “Martinus Eleutherius”, de onde derivou a grafia “Luther”/“Luthero”/“Lutero”. Houve uma mudança do “d” para o “t” ou “th”, porque eleutheria significa liberdade, que Lutero naquele momento havia compreendido ao conhecer a Cristo (DREHER, 2014, p.23).

Na região em que Lutero nasceu, o comando político era do imperador Frederico III, considerado pouco operante. Sua importância histórica é lembrada pelo fato de que conseguiu casamento para seus filhos com quase todas as casas reinantes da Europa.

A família do reformador era muito devota em sua fé, mas sua religiosidade estava envolvida em muito misticismo. Relata Dreher (2014, p. 25): “Duendes, demônios e bruxas faziam parte do cotidiano, e a crença em suas atividades era difundida através do púlpito, especialmente em épocas de tempestades e doenças. Em dias de tempestade, aliás, queimavam-se pedaços dos ramos bentos no Domingo de Ramos. Águas bentas e benzeduras não podiam faltar”.

O pai de Martinho havia planejado a carreira do filho. Será que esperava que ele estudasse teologia? Que fosse padre? Não. Ele queria que seu filho fosse estudante de direito. Logo cedo Lutero foi para escola. Aos cinco anos, foi matriculado na escola latina da cidade de Mansfeld (1488-1497). Ali teve início a “varologia”, a pedagogia da vara. Os professores foram qualificados por Lutero como tiranos e mestres da paulada. Ele afirmou que numa manhã recebera quinze varadas de um professor (LINDBERG, 2001, p. 75).

O ensino que se recebia nessa escola também tinha religião, mas mostrava Jesus como um juiz severo. O próprio Lutero assim o expressa: “Desde criança, me acostumaram a sentir-me assustado apenas ouvindo pronunciar o nome de Cristo, pois não me ensinaram outra coisa senão que ele era um juiz severo e cheio de ira” (JUST, 2003, p. 42).

Nessas escolas, os alunos aprendiam a ler e escrever o latim. Nada se ensinava sobre história, geografia ou matemática. Lutero tinha uma preocupação com isso, e assim, ao redigir seus escritos pedagógicos dirigidos a vereadores e pais, exigiu que as escolas incluíssem essas disciplinas.

Os estudos de Lutero seguiram de Mansfeld para Magdeburgo (1497-1498), onde ele permaneceu por apenas um ano. O rapaz já tinha 14 anos e financiava seus estudos por meio de mendicância e do canto junto à porta das pessoas ricas. O canto foi de grande utilidade para ele mais tarde.

Por causa da carência de recursos, Lutero foi obrigado a abandonar os estudos em Magdeburdo, voltando à casa paterna. Depois, para satisfazer o desejo de seus pais, foi estudar em Eisenach (JUST, 2003, p. 44).

Em Eisenach (1498-1501), morou na casa da família Schalbe. Esta família mantinha boas relações com o convento franciscano. Nessa escola, nada de varas. Lutero era descrito por seus colegas como: baixinho, troncudo, cabeça dura, cabelos longos, alegre e bom cantor (DREHER, 2014, p. 26).

No convento, contou com o apoio de professores que reconheceram a sua capacidade e o incentivaram na caminhada universitária. Conta-se o fato de que um dos professores da Universidade de Erfurt (Trutvetter) ouviu um discurso de Lutero em Eisenach e depois o apoiou no início da vida acadêmica (JUST, 2003, p.46).

Em 1501, Lutero iniciou os estudos na universidade de Erfurt. A faculdade de direito à qual seu pai o tinha recomendado tinha uma boa reputação. Lutero começou estudando na faculdade de artes (hoje poderíamos chamar de faculdade de filosofia); isso era costumeiro, fazia parte dos estudos introdutórios. Ali ele se formou nas disciplinas fundamentais: gramática, dialética e retórica (trívio) e geometria, aritmética, música e astronomia (quadrívio). Também teve que estudar ética e metafísica (LIENHARD, 1998, p.32).

Em maio de 1501 ele teve contato pela primeira vez com a Bíblia. Em 1502, tornou-se bacharel, podendo lecionar gramática, retórica e lógica. Em 7 de janeiro de 1505 tornou-se mestre. Quando o aluno se formava mestre em artes, tentava mais dois anos de estudo para a formação em uma das três faculdades superiores: medicina, direito ou teologia.

Foi então que Lutero seguiu o desejo de seu pai e começou a faculdade de direito. Naquele momento, seus pais já detinham uma situação financeira melhor. Mas, em 17 de julho de 1505, ele ingressou no convento agostiniano da cidade, contrariando a vontade dos pais de terem assim também uma melhor situação financeira (LIENHARD, 1998, p.34).

O que levou Lutero ao convento? Não foi a situação financeira. Pelos relatos que temos, a escolha pelo monastério deveu-se a alguns fatores espirituais, conforme Just (2003, p.47-48):

  • Certa vez, enquanto estava na universidade, Lutero pensou que iria morrer. Aí um sacerdote o visitou e o encorajou dizendo que Deus ainda faria dele um grande homem para levar consolo e esperança a muita gente.
  • Pouco tempo depois, enquanto viajava para a casa dos pais, ele cravou, acidentalmente, numa veia da coxa, a ponta do espadim que carregava na cintura. Com muito custo conseguiu estancar o sangue. E disse que orou muito em nome de Maria. Mais tarde, ao comentar o fato, Lutero contou: “Naquela ocasião, eu teria morrido confiando na virgem Maria”.
  • Um bom amigo de Lutero morreu subitamente. Este fato o deixou muito abatido e, em tal estado de ânimo ele exclamava repetidamente: “Oh! Quando finalmente, serás uma pessoa piedosa e arrependida a fim de conseguires para ti um Deus gracioso?”
  • A fim de recuperar-se de problemas de saúde, em 1505 Lutero resolveu passar algum tempo na casa dos seus pais. Depois, quando resolveu voltar a Erfurt, durante a viagem, houve uma grande tempestade. Um raio caiu ao seu lado, e ele exclamou: “Ajuda-me, querida Santa Ana, e eu te prometo que, logo a seguir, me tornarei monge!” Só assim ele achava que poderia reconciliar-se com Deus e encontrar a paz.

 

Referências bibliográficas:

DREHER, Martin N. De Luder a Lutero: uma biografia. São Leopoldo: Sinodal, 2014.

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

LIENHARD, Marc. Martim Lutero: tempo, vida, mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

 

Pastor Clóvis Renato Leitzke Blank – Conselheiro da LLLB

A CAMINHO DOS 500 ANOS – JERÔNIMO SAVONAROLA

JERÔNIMO SAVONAROLA

 

Antes de chegarmos à história de Martinho Lutero, quero convidar você, caro (a) amigo (a), para conhecermos um pouco de um homem chamado Jerônimo Savonarola. Queremos ver como este personagem ajudou a levar pessoas a lembrarem que somos dependentes de Deus.

Savonarola nasceu no ano de 1452, em Florença, na Itália. Seu avô paterno era conhecido por sua retidão moral, e isso fez com que Savonarola, ainda jovem, se juntasse à ordem dos Dominicanos. Ele foi mestre de estudos no convento em Bologna. Anos depois, foi convidado pelo senhor da cidade de Florença, Lorenço de Médicis, a voltar para lá e ser professor no convento daquela cidade.

Primeiramente fazia preleções sobre as Escrituras no jardim do convento. Mas as pessoas começaram a gostar muito do que ele falava e tiveram que encontrar um lugar com mais espaço; aí foram para a igreja do convento, onde ele ensina sobre o Apocalipse e comentava que a Igreja teria que passar por uma grande tribulação antes de ser restaurada. Nesses sermões atacava os poderosos, cujo luxo e avareza iam contra a fé cristã, e também a imoralidade dentro da própria Igreja.

Foi aí que Savonarola mexeu na ferida! Lorenço de Médicis tentou fazê-lo calar, mas ele disse que ninguém podia mandar a Palavra de Deus se calar.

Também propôs grandes reformas políticas para a cidade, para que ela pudesse viver em paz, fazendo negociações inclusive com o rei francês, quando este tentou atacar Florença.

A vontade de Savonarola era de que Florença fosse um centro missionário, assim, no convento eram estudados latim, grego, hebraico, árabe e caldeu. Ele pregava muito contra o uso de “vaidades”, por isso aconteceu diversas vezes, em praça pública, a queima de joias, roupas e outras coisas (as vaidades), enquanto se cantavam hinos. Esta celebração substituía o carnaval na cidade.

Com as críticas de Savonarola aumentando contra a corrupção dos governos e da Igreja, o papa mandou que se calasse, enviando várias bulas de excomunhão. Savonarolaobedeceu por algum tempo à ordem de guardar silêncio e não pregar mais. Mas, nesse período, passou a escrever com mais dedicação contra a corrupção da Igreja. Pela primeira vez a imprensa foi usada como instrumento de propaganda religiosa, pois seus escritos eram muito lidos, tanto em Florença, como fora da cidade.

O papa Alexandre VI lhe ofereceu o chapéu de cardeal para que ele ficasse em silêncio. Aí Savonarola lhe retrucou: “Não quero outro chapéu que um vermelho: vermelho de sangue”.

Como Savonarola atacou os poderosos da cidade e que temiam por seu comércio, estes acabaram se juntando aos religiosos que também queriam condená-lo. Então exigiram que fosse entregue para ser julgado. Ele acabou se entregando aos que exigiam que fosse preso.

Mas era necessário encontrar um motivo para acusá-lo e leva-lo à condenação. Foram feitos três julgamentos, dois deles pelas autoridades florentinas, e o terceiro pelos enviados do papa. O papa, no começo, quis que os florentinos lhe entregassem Savonarola como prisioneiro, para dispor dele a seu modo. Mas os florentinos se negaram a fazer isso. Por fim, o papa concordou em enviar alguns de seus comandados para que julgassem o caso em Florença mesmo, e ordenou-lhes que o condenassem. Nos três julgamentos, Savonarola foi condenado sem misericórdia. Não conseguiram achar uma justificativa para sua condenação. Por fim, sem obter dele a confissão desejada, condenaram-no como “herege e cismático”, apesar de nunca terem declarado em que consistia sua heresia. Pouco antes tinham sido condenados, em circunstâncias semelhantes, dois de seus colaboradores mais chegados. De acordo com o costume, não era a Igreja quem castigava os hereges, por isso foram entregues ao governo secular. Por isso, o novo conselho de Florença foi convocado para ditar a sentença, e este decretou, como era de se esperar, que os três fossem mortos. A única misericórdia (se assim podemos dizer) que tiveram com eles foi ordenar que fossem enforcados antes de serem queimados. Assim, no ano de 1498, Savonarola foi morto. Depois suas cinzas foram lançadas no rio Arno, para evitar que os seguidores as recolhessem como relíquias.

APRENDIZADOS

– Savonarola ensinava que todos que são realmente crentes fazem parte da verdadeira Igreja. Estudava continuamente a Palavra de Deus, tanto que as margens de sua Bíblia estavam cheias de anotações, feitas durante suas meditações.

– Não se conformava com a situação errada que estava vivendo. Isso nos lembra a passagem de Romanos 12.2: “Não vos conformeis…”

– Apesar da constante oposição e das ameaças, não deixou de ensinar a Palavra de Deus – “prega a Palavra, insta, quer seja oportuno, quer não…” (2Tm 4.2).

– Para terminar, lembro parte do hino “Castelo Forte”, que Lutero escreveu, dizendo: “se vierem roubar os bens, VIDA e o lar, que tudo se vá! Proveito não lhes dá. O céu é nossa herança” (HL 165.4).

 

Referências Bibliográficas

BOYER, Orlando. Heróis da Fé. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2013.

GONZÁLES, Justo L. E até os confins da terra. Uma história ilustrada do cristianismo. São Paulo: Vida Nova, v. 5, 1995.

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero: Vida e obra do Reformador com alguns capítulos introdutórios e conclusivos da história geral da Igreja e da missão. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

 

Pastor Clóvis Renato Leitzke Blank – Conselheiro da LLLB

A CAMINHO DOS 500 ANOS – JOHN HUSS

JOHN HUSS

 

“Prefiro ofendê-los com a verdade do que matá-los com a mentira”

A Reforma Luterana do século XVI não aconteceu isoladamente. Outras pessoas (teólogos, pensadores) também procuraram levar a Igreja de então a uma reflexão sobre suas doutrinas e práticas. Os pecados eclesiásticos da época (abuso do poder, ostentação e luxo, venda do perdão dos pecados, compra de cargos eclesiásticos, “politicagens”, etc.), foram combatidos por pessoas escolhidas por Deus. No entanto, o destino de muitos foi parecido: EXCOMUNHÃO, CONDENAÇÃO, MORTE!

John Huss nasceu na vila de Husinec, por volta do ano 1370, na Boêmia, onde hoje se localiza a República Tcheca (que faz divisa com a Polônia, Áustria, Alemanha). Apesar de ser oriundo de família humilde, teve uma formação filosófica e teológica na universidade de Praga. Tornou-se professor de teologia em 1398, sendo ordenado padre em 1400. Em 1402, John Huss foi nomeado reitor e pregador da capela da universidade. Ali, na Capela de Belém, ele pregou com dedicação a reforma que tantos outros tchecos propunham. Segundo o historiador Justo Gonzalez, “sua eloquência e fervor eram tamanhos que aquela capela em pouco tempo se transformou no centro do movimento reformador”.

Estudioso dos escritos de John Wycliff (veja estudo de Dezembro do ML), de quem adotava algumas ideias, Huss passou a pregar em seus sermões que a Bíblia era a grande autoridade dentro do Cristianismo e o grande paradigma para a vida do cristão, contrapondo-se à autoridade da hierarquia eclesiástica. Ele defendia que a comunhão (Eucaristia) sob as duas espécies (pão e vinho) deveria ser oferecida a todos os fieis. Além disso, John Huss pregava a ideia de uma Igreja humilde e deixava claro, em seus escritos e pregações, ser contra ostentação e luxo.

Segundo Gonzalez, “Huss nunca se tornou um adepto de Wycliff. Os interesses do inglês não eram os mesmos do boêmio, que não se preocupava tanto com as questões doutrinárias como com uma reforma prática da igreja. Ele particularmente nunca esteve de acordo com o que Wycliff tinha dito sobre a presença de Cristo na ceia, e até o fim continuou defendendo uma posição muito semelhante à que era comum em seu tempo – a transubstanciação”. Paul Kubricht afirma que Huss “sustentava um conceito dos elementos semelhante à doutrina da consubstanciação” (Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 2, p. 281).

A postura de Huss de falar contra certos pecados da Igreja causou uma forte oposição, como era de se esperar. Entretanto, as condições sociais a que estava submetida grande parte da população da região em que vivia contribuíram para que a situação se tornasse ainda mais conflituosa. Huss tinha a favor de si humildade, gentileza e carisma popular. Sua pregação contra a situação de exploração e miséria a que estavam expostos os camponeses da Boêmia, fez com que ele conseguisse pessoas que o admiravam e outras  tantas que tinham ressalvas severas contra seus ensinos.

É preciso também saber que grande parte da nobreza proprietária das terras da Boêmia era de origem alemã. As ideias de John Huss conseguiram sensibilizar os nobres de origem tcheca, que viam em suas pregações uma forma de enfrentar os germânicos. Com isso, Huss garantiu sua eleição para o cargo de reitor na Universidade de Praga, em 1409, sob as ordens do rei da Boêmia, Venceslau IV. A indicação de Huss era uma forma de contrapor a influência germânica dentro da universidade.

Rapidamente a Igreja Católica passou a se manifestar contra a presença dele na universidade. O papa decretou um interdito, banindo as cerimônias religiosas em Praga enquanto Huss estivesse na cidade. As posições contra a venda das indulgências e as demais críticas contra a Igreja levaram-no a ser acusado de heresia. Em 1410, Huss foi excomungado e, posteriormente, seguiu para o exílio no sul da Boêmia, onde escreveu sua principal obra, De Ecclesia (Sobre a Igreja).

À época havia na Europa católica três papas, no fenômeno conhecido como Cisma do Ocidente. Para tentar sanar a situação, foi convocado o Concílio de Constança, em 1414, que, dentre outras coisas, julgaria alguns casos de heresia.

John Huss foi convocado para o Concílio de Constança, portando um salvo-conduto que teoricamente garantiria sua vida, dado pelo rei Segismundo de Luxemburgo, para que pudesse apresentar os motivos de suas ideias. Tal medida não impediu que Huss fosse preso durante os sete meses que duraram seu julgamento. Neste tempo, ele não conseguiu convencer as altas autoridades religiosas. Também não renunciou a seus posicionamentos.       

         Justo Gonzalez descreve:

Por vários dias o deixaram encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram lhe pedir que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha indelével para o Concílio de Constança. Mas João Huss continuou firme. Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a Catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros. Mais uma vez lhe pediram que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza. Por fim orou, dizendo: “Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos”.

Foi condenado por heresia pelo Concílio e, no dia 6 de julho de 1415, foi queimado na fogueira. Segundo relatos, ele enfrentou a morte com grande coragem e dignidade, cantando salmos e testemunhando sua fé. Apesar de sua morte, os conflitos na Boêmia se intensificaram, originando o que ficou conhecido como Revolução Hussita, entre os anos de 1419-1437.

 

Referências Bibliográficas

CAIRNS, Earle. O Cristianismo através dos séculos: Uma história da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1995.

GONZALEZ, Justo L. Uma história ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Vida Nova, v. 5, p.95-102.

KUBRICHT, Paul. Enciclopédia Histórico-Teológica da  Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1990, v.2, p.280-281.

Pastor Adelar Munieweg – Conselheiro da LLLB