A CAMINHO DOS 500 ANOS – VIAGEM A ROMA E DOUTORADO DE LUTERO

Viagem a Roma e Doutorado de Lutero

 

Para todo bom católico da época de Lutero, uma viagem a Roma seria algo maravilhoso, seria a grande oportunidade de ver os “santos túmulos” dos apóstolos, bem como conhecer a cidade “mais santa” de toda a cristandade.

Para Lutero, essa viagem teve uma grande importância. Mas ao invés de ficar admirado com a “santidade” de Roma, ele inquietou-se com o que estava acontecendo dentro da Igreja daquela época.

O motivo da viagem foram questões relativas à Ordem dos Agostinianos. Alguns queriam reformas na Igreja, outros não. Por causa destes apelos, Lutero acompanhou um delegado do mosteiro de Erfurt. Os dois foram a pé, em novembro de 1510. Na viagem, Lutero adoeceu, a água fez-lhe mal, causando-lhe problemas intestinais (DREHER, 2014, p. 57, 58).

No fim do ano chegaram a Roma; ao avistar a cidade, Lutero disse: “Eu te saúdo, ó Roma santa! Três vezes santa em virtude do sangue dos mártires que em ti foi derramado” (JUST, 2003, p. 56).

Lutero foi a todos os lugares prescritos aos peregrinos. Num primeiro momento, ele acreditava em tudo o que estava sendo ensinado por lá. E ele mesmo diz, relatando anos mais tarde aquele momento: “Acreditei em tudo”, e lamentou que seus pais não estivessem mais vivos, pois teria podido adquirir para eles a “grande indulgência”, propiciando-lhes bem-aventurança no além (DREHER, 2014, p. 59).

Ele ficou em Roma por quatro semanas e lá viu a grande estrutura administrativa da Igreja de então. Ficou bem guardada em sua mente a imagem das mesas arrecadadoras, cada uma com uma finalidade diferente: eliminação dos votos, dispensa de impedimentos matrimoniais, legitimação de filhos bastardos (DREHER, 2014, p. 60). “Um dito popular afirmava que os mais importantes santos em Roma eram São Dobrão de Ouro e São Centavo de Prata” (DREHER, 2014, p. 61).

Esta viagem foi importante para que Lutero visse os absurdos que estavam acontecendo na época e fosse instigado a estudar com mais insistência as Escrituras Sagradas e as ensinasse ainda com mais fervor.

Quando voltou a Wittemberg, Lutero foi convidado por Staupitz a encaminhar seu doutorado e tornar-se pregador no mosteiro de Wittemberg. Lutero apresentou quinze razões para não aceitar a tarefa, inclusive os seus constantes problemas de saúde, dizendo que poderia morrer muito jovem. A isso, seu conselheiro respondeu que, se morresse, Deus também no céu precisaria de doutores (DREHER, 2014, p. 64). No fim, Staupitz o convenceu a assumir o desafio; assim, Lutero torna-se doutor em teologia, passando a ensinar a disciplina de Leitura da Bíblia.

Em sua formatura, teve que jurar que não ensinaria doutrina “estranha”, condenada pela Igreja, e que denunciaria ao corpo docente quem o fizesse (DREHER, 2014, p. 65).

Além de docente, tornou-se subprior, que era um vigário distrital, com a função de visitar uma dúzia de mosteiros. As suas muitas atividades foram importantes para que ele soubesse também o que acontecia fora dos muros do mosteiro. Com isso aprimorou o seu vocabulário e aprendeu a falar entre as várias classes sociais.
Em suas visitas aos mosteiros, ele consolava, confortava e admoestava, e só encontrava consolo na cruz de Cristo.

A grande questão que Lutero abordava com seus alunos e que refletia também uma preocupação consigo mesmo, era a salvação da alma. Perguntas vinham à tona: “Estou condenado por ser pecador ou ainda posso alcançar a salvação?” e “Posso ter certeza ou devo viver na incerteza até o fim de meus dias”?

Ele nem de longe imaginava afastar-se da doutrina da Igreja. Ele queria que as autoridades dessem ouvidos aos questionamentos e se pronunciassem.

O sentido da palavra (metanoia) o fez refletir muito. Quem pode dar penitência, perdão dos pecados? Essa palavra o fez entender que “as chaves do céu” não pertencem ao papa. Lutero descobriu que metanoia significa transformar-se completamente e confiar totalmente na graça de Deus (DREHER, 2014, p. 69, 70).

Ele faz questionamentos bem polêmicos em suas aulas e abandona o latim para falar em claro alemão. “A quem confia em suas boas intenções o diabo diz: “Ah, querido gatinho, vem e te encosta, pois teremos hóspedes – no inferno”. Aos que se julgam muito puros, quando na realidade, estão duros de tanto sujeira: “Quando eras bebê no braço de tua mãe, nunca lhe fizeste no colo algo que cheirasse mal? És tão bem cheiroso que o farmacêutico algum dia poderá fazer de ti um bálsamo precioso?” (DREHER, 2014, p. 69).

Lutero aprendeu, através de seus estudos da Bíblia, que a justiça de Deus não é uma exigência a ser cumprida por meio de realizações, mas sim um dom a ser aceito por fé (LINDBERG, 2001, p.86).

Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus” (Rm 1.17b).

 

Referências bibliográficas:

DREHER, Martin N. De Luder a Lutero: uma biografia. São Leopoldo: Sinodal, 2014.

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

LIENHARD, Marc. Martim Lutero: tempo, vida, mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

OLSON, Roger. História da teologia cristã. São Paulo: Editora Vida, 2001.

Pastor Clóvis Renato Leitzke Blank – Conselheiro da LLLB