A CAMINHO DOS 500 ANOS – QUANTAS TESES SERIAM NECESSÁRIAS HOJE?

QUANTAS TESES SERIAM NECESSÁRIAS HOJE?

 

Homens falíveis e imperfeitos, utilizados pelo Espírito Santo de Deus para resgatar e aprofundar os ensinamentos bíblicos fundamentais. Talvez poderíamos resumir assim, em poucas palavras, a história da Reforma e dos reformadores. Pensar nos acontecimentos do século XVI não é tão simples e fácil. Precisamos cuidar para não endeusar os reformadores nem a Reforma.  Por outro lado, temos um compromisso com a história: o passado, o presente e o futuro. Por isso a necessidade de relembrar e proclamar a Reforma luterana e sua mensagem, que reflete o ensinamento da Palavra de Deus, aos dias de hoje. A natureza humana continua a mesma, submersa em pecado. Os problemas teológicos e espirituais costumam repetir-se na vida da Igreja, de tempos em tempos. Tenho a impressão que se avolumaram e que novas reformas são necessárias.A Igreja e os cristãos de hoje continuam precisando de coragem.

Coragem foi um sentimento bastante presente na vida de Martinho Lutero. É preciso, sim, ter coragem para deixar o curso universitário de Direito e ingressar num mosteiro, mesmo sabendo que causaria desapontamentos, especialmente ao seu pai. Coragem para expor suas dúvidas e sentimentos a alguns superiores da sua ordem religiosa (Agostiniana). Coragem para aprofundar-se nos escritos dos pais apostólicos e, especialmente, no estudo da Bíblia Sagrada, escrevendo então suas 95 teses,convidando os pensadores de sua época para um debate ao vivo ou por escrito: “Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém” (LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas, volume I, p.22).

As 95 Teses de Lutero realmente representaram um marco e um ponto de partida. Entre as teses encontramos expressões de compreensão dos ensinamentos da Bíblia, como por exemplo:

–Tese número 1: “Ao dizer fazei penitência, etc (Mt 4.17), nosso Senhor Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência”.

– Tese 62: “O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus”.

– Tese 94:“Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça…”.

Entretanto, devemos reconhecer que elas registram, na realidade, o início do pensamento de Lutero, que seria trabalhado e refinado por Deus ao longo de seus estudos e experiências posteriores. Vejamos o seguinte exemplo:

Lutero faz referência ao purgatório, sem contestar a doutrina em si, em doze das suas teses (10, 11, 15, 16, 17, 18, 19, 22, 25, 26, 29, 82). Por exemplo: Tese 29: “Quem disse que todas as almas no Purgatório desejam ser redimidas? Diz-se que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascal, de acordo com uma lenda sobre eles”.

Trazemos essa informação não para escandalizar, mas para lembrar como é difícil desapegar-se dos ensinamentos errados recebidos. No caso de Lutero, ele reproduz o pensamento do agostiniano João Genser Von Paltz (Lutero, Martinho. Obras Selecionadas,v. 1,p.25, nota 15). E então vemos a diferença que faz aprofundar-se nos estudos das Escrituras Sagradas. Não é por acaso que o apóstolo João deixou registrado: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.31).

Às vezes ficamos pensativos: como alguns tornavam-se padres, bispos, sacerdotes, teólogos e não pensavam na profundidade e simplicidade de textos bíblicos como Romanos 1.17: “O justo viverá por fé?”Eram graduados religiosos e desconheciam que “O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”? (Rm 6.23).Ou “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”? (Efésios 2.8,9). Tantos erros entraram na vida e nos ensinos da Igreja porque a Bíblia era praticamente relegada a um segundo plano como regra e norma de fé. Aqueles que deveriam usá-la, com frequência não permaneceram nela e não a conheciam como deveriam. A tradição da Igreja tinha supremacia sobre o texto bíblico revelado por Deus.

Martinho Lutero revela que sua formação teológica deixou a desejar: “Sei e confesso que na teologia escolástica nada aprendi, senão ignorância a respeito do que é pecado, justiça, batismo e toda vida cristã. Também não aprendi o que é o poder de Deus; sua obra e justiça, nem o que é fé, esperança e amor. Em resumo, não apenas nada aprendi como também aprendi coisas que tive que desaprender, porque eram de todo contrárias às Divinas Letras” (LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas,v. 1,p.360).

 Conhecendo essa realidade e o pensamento religioso da época da Reformado século XVI, vemos como os reformadores foram graciosamente utilizados por Deus na busca e preservação das verdades principais do sola Escriptura, sola gratia e sola fide.

O Deus que guiou os reformadores não deixou de agir e não deu seu trabalho por encerrado. Ele continua falando ao mundo hoje, com a mesma mensagem eterna, através da Escritura Sagrada. Devemos, em oração e temor, ter a coragem de proclamá-la. Mais do que isso, a coragem de vivê-la além dos nossos muros: “Não se acende uma luz e se a coloca debaixo de um alqueire, etc. Isso quer dizer: quem quiser ser uma luz, não vá esconder-se num canto escuro, e sim, apresente-se publicamente e seja destemido” (Lutero, Martinho. Prédicas semanais sobre Mt 5-7. In: LUTERO, Martinho,Obras Selecionadas,v. 9, p.76)

O mundo anda precisando de cristãos destemidos, que clamem pela “reforma nossa de cada dia” e que estejam prontos a serem usados para que isso aconteça, escrevendo e reescrevendo as teses que nossa sociedade precisa refletir.

 

 

Referências Bibliográficas

CESAR, Elben Magalhães Lenz. Conversas Com Lutero: História e pensamento. Viçosa: Ultimato, 2006.

DAWSON, Christopher. A Divisão da Cristandade – Da Reforma Protestante à Era do Iluminismo.  São Paulo: Realizações, 2014.

LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1987, v. 1.

LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1987, v. 9.

Pastor Adelar Munieweg – Conselheiro da LLLB