A CAMINHO DOS 500 ANOS – LUTERO COMO MONGE

LUTERO COMO MONGE

 

A decisão de Lutero de ir para o mosteiro não foi muito bem aceita pelas pessoas que o rodeavam.

Quando ele contou aos seus amigos, num primeiro momento não acreditaram, depois tentaram fazê-lo desistir da ideia. Mas ele permaneceu firme em seu propósito e no dia 17 de julho de 1505, Lutero entra no convento dos agostinianos em Erfurt (JUST, 2003, p. 49).

Da família, Lutero também não tinha apoio para a decisão. Tempos depois, o pai de Lutero foi visitá-lo no convento e, numa conversa onde outros elogiavam esta decisão, ele afirmou: “Queira Deus que isso não seja um engano ou ilusão diabólica” (JUST, 2003, p.49). Também, em alguns momentos, lembrou-o do quarto mandamento, frisando que não se devia desobedecer à vontade dos pais.

Quando Lutero havia recebido o título de mestre em Artes, o seu pai passou a chamá-lo de “senhor”; depois de sua decisão de ir ao convento, voltou a chamá-lo de “tu” (DREHER, 2014, p.39).

A vida no mosteiro, em Erfurt, era cheia de regras: “Estava proibido de rir. Nada de movimentos bruscos. O silêncio era virtude. O olhar tinha que ficar voltado para o chão; as mãos eram enfiadas nas mangas do hábito. Até o copo tinha que ser segurado com ambas as mãos ao beber. Nas refeições não se conversava, só se ouvia leituras de vidas de santos e de textos piedosos. O dia também estava rigorosamente determinado. Sete vezes durante as 24h do dia havia oração no coro e canto responsivo dos Salmos. Tudo iniciava às 2 horas da manhã. A primeira refeição era tomada ao meio-dia. A cela monástica não podia receber visita; era pequena, sem aquecimento. A porta não podia ser chaveada e tinha uma abertura que possibilitava a observação. Nada havia nas paredes. A cama era um saco de palha com um cobertor de lã. O silêncio dominava (DREHER, 2014, p. 40).

No mosteiro, Lutero lançou-se com toda dedicação a cumprir o que lhe era exigido. Ele fazia todo o esforço, pensando que assim pudesse obter a salvação. Ele tentava “mortificar a carne” com flagelos, orações, jejuns. Tem-se sugerido que os problemas que Lutero teve em sua saúde eram devidos aos longos períodos de jejum, autoflagelação e noites insones numa cela de pedra, sem um único cobertor (LINDBERG, 2001, p. 83).

A grande pergunta que Lutero se fazia era: “Será que realmente dei o melhor de mim em favor de Deus? Será que realizei plenamente o potencial que me foi dado por Deus?” Em um certo dia, quando ele estava perante seu confessor, onde ele listava seus pecados e falava da preocupação do perdão e de ser agradável a Deus, o confessor lhe respondeu: “Tu és um idiota (…) Deus não está zangado contigo, tu é que estás zangado com Deus (LINDBERG, 2001, p.84).

Lutero, ao contrário da maioria dos seus colegas, preocupava-se muito com o juízo final. Ele temia ser confrontado com a ira de Deus, com um Cristo raivoso. Pensava que Cristo era um juiz que só condenava.

Uma pessoa muito importante para Lutero foi o dr. Johann Staupitz, prior do convento. Ele o dispensou dos serviços mais humildes e o encorajou a prosseguir no estudo da Bíblia (JUST, 2003, p.50).

Staupitz foi o primeiro a ordenar a distribuição de Bíblias para o estudo dos padres nos mosteiros que estavam sob a sua direção (DREHER, 2014, p. 43).

A primeira Bíblia de Lutero lhe foi dada por seus superiores. Era uma Bíblia latina, encadernada em couro vermelho, tradução de São Jerônimo. Isso era um privilégio, pois a maioria dos outros que estavam no convento nem sequer via a Bíblia, e só tomavam conhecimento de algumas partes através de leituras de trechos selecionados (DREHER, 2014, p.43).

Mas Lutero sofreu oposições no convento. Seu mentor, Usingen, tirou-lhe a Bíblia, argumentando que lesse os antigos mestres, pois dizia que estes já tinham destilado o suco da verdade bíblica. “A Bíblia só provoca divisões”, dizia ele (DREHER, 2014, p.43).

Na sua ingenuidade, Lutero sentia verdadeira veneração pelo papa e considerava Hus um herege abominável. Apesar disso, ele leu alguns sermões deste “herege”. Ao final, ficou pensativo e não entendia porque alguém assim poderia ter sido queimado. Mas pelo que tinha ouvido falar, logo deixou os sermões de Hus de lado (JUST, 2003, p.51).

Em 27 de fevereiro de 1507, Lutero foi consagrado diácono, e em 3 de abril foi ordenado sacerdote; no dia 2 de maio celebrou a sua primeira missa na presença de seu pai. Conta-se que, no meio da missa, Lutero encheu-se de temor. O prior, ou o mestre dos noviços, teve que retê-lo junto ao altar, pois ele estava ameaçando fugir (LIENHARD, 1998, p. 36).

Quem trouxe grande consolo a Lutero nos tempos de convento foi Staupitz. Em um certo momento, quando ele estava a lamentar seus pecados, Staupitz disse: “Cristo é a remissão dos reais pecados. Ele é o verdadeiro Salvador, e você é um legítimo pecador. Deus enviou seu Filho e o entregou à morte por nós” (JUST, 2003, p.52).

Foi Staupitz que ordenou a Lutero que seguisse seus estudos teológicos em grau de doutorado. Foi a contragosto, mas obedeceu à ordem. Por isso foi para Wittemberg, onde, em outubro de 1512, tornou-se doutor em teologia e passou a comentar a Bíblia para os estudantes da faculdade de teologia de Wittemberg (LIENHARD, 1998, p. 37).

 

Referências bibliográficas

DREHER, Martin N. De Luder a Lutero: uma biografia. São Leopoldo: Sinodal, 2014.

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

LIENHARD, Marc. Martim Lutero: tempo, vida, mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

 

Pastor Clóvis Renato Leitzke Blank – Conselheiro da LLLB