CAMINHANDO COM LUTERO – PARTE IV

John Huss

“Prefiro ofendê-los com a verdade do que matá-los com a mentira”.

John Huss

 

             Como vimos anteriormente, a Reforma Luterana do Século XVI não aconteceu isoladamente. Outras pessoas (Teólogos/Pensadores) também procuraram levar a Igreja de então a uma reflexão sobre suas doutrinas e suas práticas. Os pecados da Igreja da época:  abuso do poder,  ostentação e luxo, venda do perdão dos pecados, venda de cargos eclesiásticos, “politicagens”,  foram combatidas por pessoas escolhidas por Deus. No entanto, o destino dessas pessoas, foi muito parecido: EXCOMUNHÃO, CONDENAÇÃO, MORTE!

 

JOHN HUSS

 

Nascido em 1369 (ou 1371) na Boêmia, onde hoje se localiza a República Tcheca, John Huss teve uma formação filosófica e teológica, apesar de ser oriundo de família humilde. Na Universidade de Praga, tornou-se professor de teologia em 1398, sendo ordenado padre em 1400. Em 1402 ele foi nomeado reitor e pregador da capela da Universidade. Ali, na Capela de Belém, ele pregou com dedicação a reforma que tantos outros checos propunham desde o tempo de Carlos IV. Segundo o historiador Justo Gonzalez: “Sua eloquência e fervor eram tamanhos que aquela capela em pouco tempo se transformou no centro do movimento reformador”.

 

Estudioso dos escritos de John Wycliff, de quem adotava algumas idéias, Huss passou a pregar em seus sermões que a bíblia era a grande autoridade dentro do cristianismo e o grande paradigma para a vida do cristão, contrapondo-se à autoridade da hierarquia eclesiástica. Defendia que a comunhão (Eucaristia) deveria ser oferecida a todos os fieis. Além disso, John Huss pregava a ideia de uma Igreja humilde, contra a ostentação e luxo que apresentava a Igreja de então

 

Segundo Gonzalez: “Huss nunca se tornou um adepto de Wycliff. Os interesses do inglês não eram os mesmos do boêmio, que não se preocupava tanto com as questões doutrinárias como com uma reforma prática da igreja. Ele particularmente nunca esteve de acordo com o que Wycliff tinha dito sobre a presença de Cristo na ceia, e até o fim continuou defendendo uma posição muito semelhante à que era comum em seu tempo – a transubstanciação”..

 

A postura de Huss de falar contra certos pecados da Igreja causou uma forte oposição, como era de se esperar. Entretanto, as condições sociais a que estava submetida grande parte da população da região em que John Huss vivia, contribuíram para que a situação se tornasse ainda mais conflituosa. Huss tinha a favor de si a humildade, gentileza e o carisma popular. A pregação de Huss  contra a situação de exploração e miséria a que estavam submetidos os camponeses da Boêmia fez com que ele conseguisse pessoas que o admiravam e outras que tinham ressalvas severas contra seus ensinos.

 

É preciso também saber que grande parte da nobreza proprietária das terras da Boêmia  eram de origem alemã. As idéias de John Huss conseguiram sensibilizar os nobres de origem tcheca, que viam em suas pregações uma forma de enfrentar os germânicos. Com isso, Huss garantiu sua eleição para o cargo de reitor na Universidade de Praga, em 1409, sob as ordens do rei da Boêmia, Venceslau IV. A indicação de Huss era uma forma de contrapor a influência germânica dentro da Universidade.

 

Rapidamente a Igreja católica passou a se manifestar contra a presença de John Huss na Universidade. O papa decretou um interdito, banindo as cerimônias religiosas em Praga enquanto Huss estivesse na cidade. As posições contra a venda das indulgências e demais críticas contra a Igreja levaram-no a ser acusado de heresia. Em 1412, Huss foi excomungado.

 

À época havia na Europa católica três papas, no fenômeno conhecido como Cisma do Ocidente. Para tentar sanar a situação, foi convocado o Concílio de Constança, em 1414, que, dentre outras coisas, julgaria alguns casos de heresia.

 

John Huss foi convocado para o Concílio de Constança, portando um salvo-conduto dado pelo rei Segismundo de Luxemburgo para que pudesse apresentar os motivos de suas ideias. Tal medida não impediu que Huss fosse preso durante os sete meses que duraram seu julgamento, e ele não conseguiu convencer os altos dignatários e também não renunciou a seus posicionamentos. Foi condenado por heresia pelo Concílio e no dia 06 de julho de 1415 foi queimado na fogueira.

 

Quando foi convidado a se retratar dos seus ensinos, segundo Justo Gonzalez ele teria dito: “Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e na justiça.

 

E ainda finalizando o relato sobre a vida de John Huss, Justo Gonzalez descreve:

Por vários dias o deixaram encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram lhe pedir que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha indelével para o concílio de Constança. Mas João Huss continuou firme. Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros. Mais uma vez lhe pediram que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza. Por fim orou, dizendo: “Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos”. Morreu cantando os salmos.

Apesar de sua morte, os conflitos na Boêmia se intensificaram, originando o que ficou conhecido como Revolução Hussita, entre os anos de 1419-1437.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

GONZALEZ, Justo L., Uma história ilustrada do cristianismo, Vol. 5, páginas 95 a 102, editora Vida Nova.

 

 

Pastor Adelar Munieweg – Conselheiro da LLLB 2015/2017

CAMINHANDO COM LUTERO – PARTE III

Caminhando com Lutero III – John Wyclif

Estamos chegando bem perto da história de Lutero…

Hoje queremos conversar sobre a vida de John Wyclif

Wyclif nasceu em 1328. Ele estudou e ensinou em Oxford, Inglaterra, a maior parte da sua vida. Até o ano de 1378 ele queria reformar a igreja através da eliminação dos clérigos (padres, bispos, etc) imorais, e também com isso estes perderiam o direito à propriedade que eles tinham. Segundo Wyclif os líderes da igreja poderiam usar os bens da igreja, mas não teriam direito a posse deles. A falha em cumprir suas funções seria razão suficiente para a autoridade civil tirar os bens deles e entrega-los somente aos que servem a Deus dignamente (CAIRNS, 1995, p. 204).

Essa reivindicação de Wyclif agradava os nobres que esperavam se apoderar dos bens da Igreja Romana. Por isso Wyclif obteve proteção deles para que a igreja de Roma não o pegasse.

Mas a luta dele não foi só por causa das propriedades. A partir de 1378 ele começou a se opor as doutrinas ensinadas, das quais destaco algumas de suas posições:

– Em 1382 ele escreveu em um livro que Cristo, e não o papa, era o chefe da igreja;

– Afirmou que a Bíblia, e não a Igreja, era a autoridade única para o crente, e que a Igreja Romana deveria se moldar segundo a Igreja do Novo Testamento;

– No ano de 1382 Wyclif se opôs a doutrina da transubstanciação. Essa doutrina ensina que o pão e o vinho se transformavam no corpo e sangue de Cristo na Santa Ceia. Nós luteranos cremos na presença real, onde cremos que não há transformação da substância, mas que Cristo está presente de forma real na ceia, juntamente com o pão e o vinho, assim como Jesus mesmo instituiu. Isso mexeu com a Igreja Romana, pois tirava o “poder de dar a salvação” das mãos do bispo, visto que eles acreditavam que o sacerdote tinha o poder para transformar os elementos da ceia.

– Condenava o comércio de indulgências e veneração de relíquias;

– Criticava veementemente as cerimônias externas e tradições humanas que ofuscavam a Palavra de Deus;

Em 1382 Wyclif terminou a primeira tradução completa do Novo Testamento para o inglês, dando a possibilidade ao povo de ler a Bíblia em sua língua materna. Em 1384 Nicolau de Hereford terminou a tradução do Antigo Testamento para o inglês.

Um fato marcante da vida de Wyclif é que quando ele se encontrava acamado em Londres e muito enfermo, vieram certos frades para lhe dar conselhos. Depois de ouvir eles pedirem que ele se retratasse de tudo o que havia ensinado antes de sua morte, ele com muita coragem recostou-se na cama e recitou as palavras do Salmo 118.17: “Não morrerei, antes viverei e contarei as obras do Senhor” (FOXE, 2005, p. 63-64).

Faleceu em 1384 em Lutterworth, onde ocupava o cargo de pregador. Um fato marcante foi que mesmo depois da morte, o ódio e a perseguição a ele não terminou. Por uma determinação do concílio de Costnitz que condenou a sua doutrina, os seus restos mortais foram exumados e queimados, sendo que as cinzas foram jogadas em um rio, bem longe de qualquer igreja.

Este relato da vida de John Wyclif tem muito a nos ensinar. Uma bela conclusão a que chegamos, é que podem até destruir o nosso corpo e tentar apagar aquilo que falamos e ensinamos, mas a Palavra de Deus permanece para sempre. Mesmo que condenaram e exumaram o corpo deste pré-reformador, o seu ensino permaneceu e por isso podemos e devemos continuar dizendo: “Vou viver e anunciar o que o Senhor tem feito”. Amém

 

Referências Bibliográficas

CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1995.

FOXE, John. O livro dos mártires. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero: Vida e obra do Reformador com alguns capítulos introdutórios e conclusivos da história geral da Igreja e da missão. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

CAMINHANDO COM LUTERO – PARTE II

Caminhando com Lutero II – Situação religiosa e fatos que marcaram a Idade Média tardia

A nossa caminhada com Lutero ainda não chegou a ele. Mas para todo exercício é necessária a preparação. Portanto, antes de chegarmos a Lutero vamos fazer o “aquecimento e alongamento” com os fatos anteriores a reforma luterana.

A situação religiosa – A igreja ia crescendo e com isso foi necessário que houvessem mais pregadores em comunidades maiores. E alguns destes pregadores tiveram mais prestígio e foram chamados de bispos. Eram principalmente os bispos de Roma, Jerusalém, Antioquia e Constantinopla que desfrutavam de grande autoridade.

As comunidades menores buscavam conselhos nestes lugares para assuntos mais graves. A maior influência dos bispos foi de Roma.

Com o passar do tempo os bispos de Roma se acharam mais importantes do que os outros bispos e se atribuíram o direito de serem somente eles os árbitros na Igreja de Deus. Também ficavam muito irritados quando alguém resolvia não se submeter ao seu julgamento.

Eles passaram a afirmar que Pedro fora o fundador da comunidade em Roma, e seu bispo, durante um longo período.

Gregório VII, o antigo monge Hildebrando, ocupou o trono papal em 1073. Ele proibiu o casamento dos sacerdotes e exigiu que todos os sacerdotes recebessem o seu cargo e seus territórios não do poder secular, mas unicamente de suas mãos. Ele dizia: “Assim como a Lua recebe a sua luz do sol, assim os imperadores e príncipes devem ser investidos no poder através do papa. O papa é o representante de Cristo na terra. Por isso, todos os senhores e poderosos deste mundo lhe devem obediência. Somente ele tem o direito e o poder de empossar e de depor”.

O surgimento do papado em Avignon: De 1309 a 1378 a sede do papado foi transferida para Avignon (França) levando o poder do papado para lá.

O que se via neste papado segundo um poeta da época, chamado Petrarco, era: luxúria, mundanalidade, era para ele o “esgoto do mundo” (LINDBERG, 2001, p. 59). Críticos começaram a murmurar dizendo que Jesus disse a Pedro para apascentar as ovelhas (Jo 21.15-17) e não as tosquiar.

Em março de 1378, com a morte do papa Gregório XI o papado voltou para Roma. Lá foi escolhido Urbano VI. Só que em setembro deste ano os cardeais alegaram que a eleição tinha sido inválida por suposta pressão das multidões. Então escolheram Clemente VII para ser papa. A partir daí um residia em Roma e outro em Avignon. O problema é que os dois se consideravam papas e um excomungou o outro. E agora? A quem se deveria a honra e autoridade papal? Quem seria o representante de Cristo na terra? Com isso o prestígio do papado caiu muito.

O surgimento de um papado tríplice: Em 1409 cardeais de cada um dos papas reuniram-se para um concílio onde decidiram depor os dois papas considerando-os como cismáticos e hereges notórios, elegendo um novo papa, Alexandre V, arcebispo de Milão. Imaginem o que aconteceu? Três papas!

Além de tudo isso, se somava o pouco caso que se fazia ao celibato. Os filhos bastardos dos bispos se moviam no meio da nobreza, reclamando abertamente o sangue de que eram herdeiros. Até o digníssimo dom Pedro Gonzáles de Mendonza, que sucedeu a dom Alonso Carrillo como arcebispo de Toledo, tinha pelo menos dois filhos bastardos, a quem mais tarde, com base no arrependimento do arcebispo, Isabel declarou como legítimos. Se isso ocorria no alto clero, a situação não era melhor entre os padres paroquianos, muitos dos quais viviam publicamente com suas concubinas e filhos. E visto que tal situação não tinha a permanência do casamento, eram muitos os sacerdotes que tinham filhos de várias mulheres (GONZALES, 1995, p. 23).

Onde está a autoridade para decidir entre questões religiosas? No papado? Nos concílios? Ou na Palavra de Deus? Será que todos ficaram quietos e aceitaram todas estas coisas que estavam acontecendo? Não.

As cenas dos próximos capítulos vão nos falar de homens como John Wickiff e John Huss.

 

Referências Bibliográficas

GONZÁLES, Justo L. E até os confins da terra. Uma história ilustrada do cristianismo. São Paulo: Vida Nova, 1995. v.6

JUST, Gustav. Deus despertou Lutero: Vida e obra do Reformador com alguns capítulos introdutórios e conclusivos da história geral da Igreja e da missão. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.