CAMINHANDO COM LUTERO – ESTUDO I

CAMINHANDO COM LUTERO

Caminhando com Lutero

Queridos irmãos, leigos de todas as partes de nosso Brasil!

É com imensa alegria que chegamos até vocês. Como todos vocês sabem, estamos entrando em contagem regressiva para a comemoração dos 500 anos da Reforma Luterana.

Assim também nós, Liga de Leigos Luteranos do Brasil, queremos refletir sobre alguns aspectos importantes da Reforma Luterana.

Nós, da diretoria eleita no último congresso nacional, estamos nos reunindo mensalmente para pensarmos nos trabalhos da liga e, também, para refletirmos sobre a reforma luterana.

E queremos neste espaço, compartilhar algumas coisas com vocês sobre o que conversamos na reunião. Fiquem bem à vontade para usar este material e também para enviar comentários e sugestões para nós.

Coloco como título “caminhando com Lutero”, pois queremos caminhar com ele, como se estivéssemos nesta caminhada batendo um papo e descobrindo coisas importantes sobre aquele período e também sobre a vida e obra do reformador.

Para começar trago alguns aspectos do fim da idade média, um pouco da realidade da Europa nos anos que antecederam a reforma:

Eles estavam vivendo uma era de crises. Crise não é uma característica particular da Idade Média. Hoje passamos por crise financeira (alta do dólar) e crise política (corrupção, desvio de dinheiro), mas dizem historiadores que “foram poucas as vezes em que a percepção de crise alcançou e abarcou todas as classes sociais e tomou conta de (…) áreas tão extensas da Europa Ocidental” (OBERMAN, 1973 apud LINDBERG, 2001, p. 39). Ao longo desta nossa reflexão veremos quais são as “áreas mais críticas”.

Algo que teve grande impacto na população europeia foi uma grande crise agrária em meados do século XIV, o que contribuiu para a urbanização. Os sobreviventes procuravam nas cidades uma condição de vida melhor e, na maioria das vezes, não encontravam. Isso fez com que a maioria destes, se submetesse a empregos que proporcionavam condições mínimas de sobrevivência, ou senão, reduziam-se a pedintes.

Crônicas da época arrolavam sucessão de enchentes, invernos rigorosos e secas severas. No sul da França as chuvas inundaram a região da Provença em 1307-08 e 1315 (LINDBERG, 2001, p.40).

Esta situação fez com que clérigos e leigos marchassem em procissão, com os pés descalços, para que segundo eles pudessem apaziguar a Deus em razão dos pecados humanos. Mas eles diziam: “Deus demorou a ouvir as orações” (LINDBERG, 2001, p. 40).

Também no sudeste da Alemanha aconteceram tremores de terra e grandes enxames de gafanhotos seguiram-se às crises de fome aguda nos anos de 1315-17.

O imperador Carlos IV escreveu que havia sido acordado em uma manhã por um cavaleiro que gritava: “Levanta-te Senhor! O juízo final está aqui, pois o mundo inteiro está cheio de gafanhotos” (LINDBERG, 2001, p. 41).

Fraca e malnutrida a população foi atingida por surtos de febre tifoide e em seguida pela terrível Morte Negra em suas várias formas de peste: bubônica, pneumônica e septicêmica.

É difícil para nós imaginar o impacto pessoal e social que tinha a peste. Diz Lindberg (2001, p.42) falando sobre a peste: Ela podia derrubar uma pessoa sadia em uma questão de dias, ou, em sua versão septicêmica – na qual o bacilo entrava na corrente sanguínea – numa questão de horas. O temor bastante difundido de uma morte iminente e horrível causava o colapso dos costumes e normas.

Há uma estimativa que 30% da população europeia tenha sucumbido em decorrência da peste.

Durante o período da Reforma a peste tinha abrandado, mas ainda representava um perigo real. A brevidade da vida nunca estava longe dos pensamentos das pessoas. A peste era percebida em grande escala como a punição de Deus pelos pecados da humanidade.

Com tudo isso era natural que se tentassem formas de resolver a situação. Muitos acreditavam que a flagelação poderia “apaziguar a Deus”. Assim muitas vezes se reuniam para atividades de flagelação muito sangrenta. Também praticavam procissões que ainda ajudavam a disseminar ainda mais a peste por causa do contato com pessoas infectadas.

Visando proteção para a peste buscava-se a intercessão dos santos. Um exemplo é Sebastião, que havia morrido atingido por flechas. Acreditava-se que a ira de Deus causada pelas flechas da peste direcionadas a Sebastião poderiam auxiliar os doentes. Também se buscava o auxílio de Maria.

Alguns interpretavam a peste como maquinação dos judeus. Em 1349 judeus foram mortos de forma cruel na Alemanha e em outros países.

Multiplicavam-se as intercessões litúrgicas com o fim de facilitar a passagem dos falecidos ao céu. O catolicismo do final da Idade Média era em grande parte um culto dos vivos a serviço dos mortos (GALPERN, 1974 apud LINDBERG, 2001, p. 45). Este “serviço” da igreja foi explorado pelas doutrinas do purgatório e das indulgências.

Aliada a toda esta crise ainda havia as guerras. A expressão prolongada foi a guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre as monarquias francesa e inglesa.

Algo que é muito importante e alavancou a reforma foi o desenvolvimento da impressão. O que se tinha até o momento era o papiro e o pergaminho, que eram muito caros e de difícil acesso. O desenvolvimento de um papel relativamente barato de polpa de linho, introduzido por Marco Polo a partir da China tornou financeiramente viável o desenvolvimento da impressão.

E assim novas ideias difundiram-se agora com rapidez. Ao passo que ideias religiosas de Wyclif se espalharam com extrema lentidão através de cópias manuscritas. (Imaginem se Lutero tivesse facebook)!

Junto com a invenção da impressão também teve um rápido florescimento a mineração na Alemanha. A maior parte da prata era usada para fazer moedas, o que facilitou uma revolução monetária. A medida que a economia adotou o dinheiro houve um crescimento bancário na Alemanha. Isso fez com que tivesse ascensão a grande casa bancária dos Fugger que se envolveu em muitas áreas (indulgências, eleição imperial de Carlos V). A mineração permitiu o aumento direto da riqueza de Frederico, o Sábio, o eleitor da Saxônia, futuro protetor de Lutero. A riqueza de Frederico fez com que ele também pudesse fundar a universidade de Wittemberg.

Trazemos estes acontecimentos, pois Lutero fez a reforma dentro de um contexto. Este é o primeiro capítulo. Não perca as próximas publicações.

Um grande abraço e que possamos continuar caminhando com Lutero!

Fiquem na paz de nosso Senhor Jesus Cristo.

Pastor Clóvis Blank – Conselheiro da LLLB

 

BIBLIOGRAFIA:

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.